nov 12

DA SELFIE AO BISTURI

Que atire a primeira pedra quem nunca editou uma fotografia para ficar mais favorecido. Mas o que separa o normal do obsessivo? E o que é que acontece quando tentamos levar a obsessão para o bloco operatório?

A preocupação com a imagem tem aumentado nos últimos anos e não faltam estratégias para que consigamos aproximar o nosso eu real do eu que idealizamos. Mas se, por um lado, existem caminhos mais longos como dietas, exercício físico e tratamentos estéticos, os mais imediatos têm conquistado popularidade. Imagine que, em apenas alguns minutos, consegue o nariz com que sempre sonhou, um maxilar mais quadrado e uma pele luminosa. Parece tentador, não é? E está à distância de apenas uns cliques no ecrã.

A edição de imagem não é novidade, o que se alterou foi que passou a estar ao alcance de todos e de forma muito mais fácil e user friendly do que em programas como o Photoshop, por exemplo. A aplicação mais conhecida nestas andanças é o Facetune e acreditamos que o nome não lhe seja estranho, dado que é a aplicação com mais downloads na categoria de fotografia e vídeo em 127 países. Na primeira versão, lançada em março de 2013, podia criar uma pele sem poros, borbulhas e rugas, branquear os dentes e ainda afinar o nariz e o rosto por apenas € 3,99. A segunda versão (Facetune 2) chegou às lojas de aplicações em novembro de 2016 e, para além das funções mais básicas que pode usar gratuitamente, por € 5,99 pode desbloquear um rol de ferramentas que lhe permitem melhorar-se e ainda uma “câmara mágica” que edita a imagem enquanto está a tirar a fotografia, poupando-lhe a pós-produção.

SELFITIS

É o nome do distúrbio associado ao vício de tirar selfies e está dividido em três níveis: se tira fotos a si próprio pelo menos três vezes por dia, mas não as publica, sofre de Borderline Selfitis. Se tira fotos pelo menos três vezes e as publica nas redes sociais, tem Selfitis Agudo. Se sofre de uma vontade incontrolável de tirar selfies e as publica mais de seis vezes por dia, lamentamos, mas sofre de Selfitis Crónico. Foi um grupo de investigadores das universidades indianas Nottingham Trent e Thiagarajar School of Management que desenvolveu este estudo e, embora não possa servir de base para um relatório sobre o distúrbio, porque a amostra usada não é representativa, os resultados foram divulgados pelo mundo inteiro.

ECRÃ MEU, ECRÃ MEU…

Falando de cirurgia estética, o nariz reúne algum consenso entre os motivos que levam as pessoas às clínicas. Mas atenção: a câmara do seu telemóvel pode estar a enganá-lo. Um estudo da Universidade de Stanford, elaborado pelos cirurgiões Ohad Fried e Boris Paskhover concluiu que parte das queixas que davam origem a consultas de cirurgia estéticas tinham a ver com defeitos irreais, criados pela distorção da imagem. Isto acontece porque, quando tiramos uma selfie, seguramos o telemóvela apenas 30 centímetros do rosto, criando a ilusão de um aumento desproporcional de alguns traços. Por exemplo, a base do nariz pode aumentar até 30%, no caso dos homens, e 20%, no das mulheres. E este não é o único caso em que os telemóveis são os culpados por expectativas irrealistas em relação à imagem: em 2018, os utilizadores do recém-lançado iPhone XS repararam que a sua pele parecia modificada nas selfies. A marca foi acusada de usar um “beauty filter” que atenuava rugas e imperfeições e que, aparentemente, não se podia desativar. Segundo a Apple, esta função chama-se Smart HDR e pode ser desligada, mas os utilizadores afirmam que, mesmo assim, continuam a ver os seus efeitos, ainda que de forma mais suave.